O impacto maior da pandemia sobre trabalhadores informais criou a sensação de estabilidade de renda do trabalho. Mas esse cenário é falso, afirma Daniel Duque, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Isso porque trabalhadores informais e com remuneração mais baixa deixaram de ser contabilizados, o que elevou a renda média.

“Quando olhamos a renda média durante a pandemia vemos que ela caiu no segundo trimestre, se recuperou e vinha andando de lado desde então, estabilizada de certa forma. Mas isso me parecia estranho em um cenário de menor remuneração e pressões como inflação e reajustes”, afirma Duque.

Ele argumenta que a renda caiu em todos os grupos de ocupação. Mas a pandemia teve impacto mais negativo sobre empregos de baixa qualificação, como atividades como serviços, emprego doméstico, e informais.

“Os trabalhadores que ganhavam menos deixaram de ter renda e saíram do mercado de trabalho, ficando de fora do cálculo da renda média. Como quem ficou são trabalhadores mais qualificados e com maiores salários, a renda acabou sendo puxada para cima”, diz, ao observar que o apoio do governo para a manutenção de vagas formais colaborou para isso.

Duque calculou como a renda média variou em dois cenários. No primeiro, manteve a proporção de cada grupo de ocupação dentro do total. Observou queda de 7,8% da renda média do trabalho, de R$ 2.450,36 no último trimestre de 2019 para R$ 2.260,40 no primeiro trimestre deste ano.

No segundo cenário, excluiu trabalhadores que foram empurrados para fora do mercado de trabalho e observou crescimento de 4,3% dessa renda no mesmo período, indo de R$ 2.450,36 para R$ 2.556,80.

Duque calculou ainda o peso de variáveis como educação, idade, experiência por anos de emprego, atuação no setor público e privado e horas trabalhadas. “As principais características que puxaram a renda para cima foram educação, trabalhar no setor público, experiência laboral medida por anos de trabalho e tipo de emprego”, afirma.

O economista diz que a renda média começa a se recuperar, mas a expectativa é que seja muito menor do que era antes da pandemia. “Conforme reincorporamos trabalhadores de menor qualificação, a renda média será puxada para baixo”, diz Duque. “Além disso, teremos tarifas com reajustes, mais inflação e recontratações com salários menores.”

O economista estima que serão necessários de dois a três anos para a renda média voltar ao patamar pré-pandemia.

Fonte: Valor Investe

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