O número de casos de covid-19 (a doença causada pelo novo coronavírus) deverá praticamente dobrar em cinco dias em São Paulo, de acordo com modelo matemático sobre a evolução da epidemia no Brasil e, mais especificamente, em quatro capitais brasileiras. Segundo os pesquisadores, o número de casos registrados na capital paulista, que, em 31 de março foi de 1.885 (dados divulgados ontem, 1 de abril), deverá saltar para 3.673 até 5 de abril — um aumento de 94%.

Os dados estão sendo compilados e analisados por uma equipe de cientistas de cinco universidades brasileiras (USP, UFRJ, UERJ, UFRGS e UnB) e veiculados no site Covid-19 Brasil, publicado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMUSP-Ribeirão).

O UOL entrevistou o professor de Medicina Social da FMUSP-Ribeirão, Domingos Alves. Doutor em Física pela USP, Alves é coautor de um documento escrito por sete cientistas brasileiros que aponta que a covid-19 se propaga mais rapidamente em capitais. Nele, os cientistas fizeram um apelo para que as pessoas acreditem na ciência e respeitem as medidas de restrição estabelecidas.

Como é o trabalho?

O grupo, composto no momento por 20 cientistas, utiliza várias ferramentas para, por meio de parâmetros epidemiológicos e modelos matemáticos, possíveis cenários da evolução da epidemia de covid-19.

“É um trabalho que une computação e matemática”, explicou Alves, que busca a adesão de especialistas do Brasil inteiro. Nos últimos dias, cientistas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina aderiram ao grupo.

“Conversei com o Edson Amaro, do Albert Einstein, e nossa ideia é criar uma força tarefa nacional de ciência de dados”, disse o professor da USP. O trabalho é voluntário e o grupo segue aberto a novas adesões.

Cidades devem ser monitoradas

Segundo Alves, a principal motivação é que o Brasil pare de analisar epidemias por estado ou num contexto nacional. “O pressuposto do monitoramento feito pelo site Covid-19 Brasil é que a análise epidemiológica no Brasil seja feita por municípios.”

Os estudos mostram, até agora, que em quatro capitais brasileiras a covid-19 se expande de forma mais rápida: São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Fortaleza. A tese de Alves e dos demais cientistas é que isso acontece pois as quatro cidades são as maiores conexões aéreas do Brasil, o que amplia o número de pessoas circulando.

Monitorar cidades é fundamental, pontuou Alves, pois analisando a covid-19 pelo mundo é possível ver países que tiveram algumas cidades e regiões como principais focos de transmissão. “Na China, foi Wuhan; na Itália, a região da Lombardia; na Espanha, Madri, e em Portugal, o Porto”.

“Nos Estados Unidos cresceu porque a epidemia se desenvolveu em três cidades diferentes, e no Brasil se espera um comportamento da epidemia parecido com o que aconteceu nos Estados Unidos, ou pior”, avaliou.

Em SP, aeroportos e marginais deveriam estar fechados

Alves é um defensor radical das medidas de distanciamento social. “A literatura científica e a Organização Mundial da Saúde apontam que é a única solução. Isso tem que ser seguido.”

Para ele, a cidade de São Paulo, devido à rápida evolução dos casos, já deveria estar com os aeroportos fechados “há muito tempo”. “E as estradas, marginais e avenidas, como a Bandeirantes, por exemplo, deveriam estar fechadas. As medidas deveriam ser mais restritivas do que as adotadas até aqui”, opinou.

Previsões para São Paulo

Ontem (1 de abril) foram divulgados dados da covid-19 até 31 de março, e o número de casos na cidade de São Paulo explodiu, passando de 1.233 para 1.885, o maior salto em um único dia — de acordo com o Centro de Vigilância Epidemiológica Estadual Alexandre Vranjac, que é a fonte utilizada pelo site Covid-19 Brasil.

“Esse boom era previsto, pelo tanto de resultados represados. É isso que está sendo medido”, disse o professor da USP. “A previsão bateu. Bate com a margem de erro. Esse aumento brusco de casos e óbitos não é de hoje. Eram casos aguardando notificação”, acrescentou.

SP supera outras cidades em casos por 100 mil/hab

Até os dados divulgados em 31 de março (que são de 30 de março), São Paulo estava em terceiro lugar no número de casos por 100 mil habitantes, entre as quatro cidades monitoradas pelo site Covid-19 Brasil. Hoje a capital paulista está em primeiro lugar, com 15,38 casos por 100 mil habitantes.

“Se a gente colocar os dados com relação à população de cada cidade, até ontem [anteontem] estava na frente Fortaleza, seguida de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.”

Segundo o professor, ainda não se pode dizer que as medidas de restrição já estão surtindo efeito.”O que está se medindo agora é o resultado de exames de 7, 10 dias atrás. Tem que testar mais e mais rápido”, ponderou.

Fonte: UOL

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